Em uma breve análise econômica sobre o governo de Donald Trump, é possível observar que a situação se encontra bastante favorável para a maior economia do mundo, em termos de PIB. Diminuição dos impostos para empresas, redução constante da taxa de desemprego (a menor desde 1969), aumento dos salários médios/hora e alta do PIB na casa dos 4% (taxa anualizada) no terceiro trimestre de 2018. Atualmente, a economia americana está bem aquecida, fruto de uma Reforma Tributária proposta logo no primeiro ano da era Trump, em 2017.

Essa reforma consistiu na redução dos impostos empresariais de 35% para 21%, o maior corte em 30 anos. Outra mudança foi a cobrança de uma taxa única, de um dígito, sobre os lucros repatriados. Além disso, tornou mais simples o pagamento efetuado por pessoas físicas, reduzindo as “casas” de cobranças de sete para quatro (12%, 25%, 35% e 39,6%).

Porém, nem tudo se encontra em seu estado perfeito. Normalmente, em se tratando de assuntos econômicos, quando um lado ganha, o outro perde. É exatamente aí que começa o problema que abordaremos no decorrer do texto. O imposto é uma das mais importantes fontes de receita de qualquer governo. Como esta reforma foi bastante significativa e grandiosa, acabou afetando seriamente o déficit orçamentário dos Estados Unidos. Estima-se que este déficit aumente cerca de US$ 1,5 trilhão em uma década. Vale ressaltar que, no mês de setembro deste ano, fechou o balanço negativo em US$ 804 bilhões, cerca de 4,2% do PIB.

Para piorar a situação, Trump aumentou consideravelmente os gastos públicos nesses quase dois anos de governo. No início de 2018, o Congresso americano autorizou um aumento do gasto público na casa dos US$ 400 bilhões. Metade deste montante foi destinado para a área militar. O restante foi para áreas de saúde, infraestrutura e medidas de auxílio a desastres naturais (furacões e queimadas).

Não é coincidência a imposição de mais tarifas sobre mercadorias importadas, de diversos países, com um enfoque maior na China. Segundo Trump, as tarifas têm objetivo de reduzir o déficit comercial que os EUA possuem com o gigante asiático. Além disso, o presidente também diz acreditar que empresas chinesas financiadas pelo seu governo acabam roubando tecnologia e prejudicando as empresas americanas quando estas entram no mercado chinês. Recentemente, no mês de setembro, foi colocada em prática mais uma política protecionista, com taxas de 10% sobre US$ 200 bilhões em mercadorias. A Casa Branca não descarta uma nova rodada já para o mês de dezembro.

É de se esperar que a inflação acompanhe uma das expansões mais fortes já registradas na história do país. E a política mais usada para conter o aumento geral do nível de preços é a alta da taxa básica de juros da economia. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), neste ano de 2018, já realizou três aumentos, de quatro previstos. Hoje, no momento em que este texto é escrito, a taxa está em uma faixa de 2 a 2,25%. Devido a essa alta, a expansão econômica acaba sendo, de certa forma, contida. Donald Trump criticou o presidente do Fed, Jerome Powell (sua própria indicação), por realizar os aumentos nos juros, uma vez que tinha o desejo de expandir a economia do país.

Um ponto importante que não podemos deixar de mencionar, de extrema importância para o futuro da política, são as eleições para as Câmaras dos Deputados e Senadores, no início do mês de novembro. Para o presidente governar e colocar em prática suas ideias, é necessário que haja uma maioria republicana (partido de Trump). Hoje, Trump tem essa maioria, porém as pesquisas indicam que o cenário pode mudar, voltando para os democratas a superioridade numérica de assentos. Membros deste partido adotam o tom de uma política de austeridade fiscal, indo na contramão do praticado atualmente e podendo “arruinar” as ideias do presidente.

Assim, o momento em que se encontra o país não reflete 100% o que se alardeia por aí, como sendo “uma maravilha”. Essa falsa sensação pode estar com os dias contados. Isso porque todas as crises/recessões enfrentadas pelos Estados Unidos tiveram como alerta a diminuição da curva de juros. Esta curva nada mais é do que a diferença de rendimentos dos Treasuries (títulos do governo) de 2 e de 10 anos. Normalmente, em uma economia saudável, espera-se que a rentabilidade do título de 10 anos seja maior do que a de prazos inferiores. Porém, essa diferença está gradualmente diminuindo, indicando pouco entusiasmo com a economia futura. Quando há a inversão desse spread, historicamente é um sinal de recessão. Costumeiramente, junto à inversão nota-se um “sell-off” no mercado financeiro, o que explica o desempenho deveras fraco no mês de outubro, quando o índice S&P 500 recuou quase 8%.

A Economia é uma ciência que sempre busca prever cenários futuros com a maior precisão possível, através de análises macroeconômicas minuciosas e utilização de complexos modelos matemáticos. Porém, há também muito o lado especulativo e humano (nem todo mundo pensa da mesma maneira), transformando, muitas vezes, o resultado em uma incógnita – que só o tempo poderá dar a resposta. A recessão citada no texto é uma aposta que especialistas no assunto acreditam que possa acontecer. Além dos indícios da curva de juros, os investidores podem perder a confiança com as políticas comerciais adotadas pelo governo Trump. Outros tópicos apontados seriam a aposentadoria da geração “baby boomer” e a diminuição no crescimento da produtividade dos trabalhadores em geral. Acredita-se que o “período sombrio” chegue no fim de 2020 e, até lá, muitas questões vão se desenrolar, podendo antecipar ou postergar este evento.