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Desde setembro de 2017 o Irã vive revoltas populares causadas pelo descontentamento com o governo e a deteriorada economia. Eleito como última esperança pela população, o presidente Hassan Rouhani frustrou as expectativas, não cumpriu suas promessas da campanha, pautadas principalmente por combate à corrupção, prosperidade econômica e melhorias nas relações externas, dados os diversos embargos e punições que o país recebe.

A população tinha esperanças que a administração do presidente e o acordo nuclear feito com potências mundiais acabassem com as sanções impostas ao país, trazendo investimento estrangeiro, diminuição na taxa de desemprego e aumento do poder de compra. Todavia, os números mostram o oposto. Atualmente, a taxa de desemprego é de 12,5%, e o número é ainda mais preocupante entre os jovens com mesos de 30 anos, chegando a alarmantes 25%.

Além disso, achatando o poder de compra da população, há a inflação de 10% ao ano e a depreciação da moeda local, o rial, que tem desvalorização acumulada nos últimos dez anos de 450% ante o dólar. Essa queda se dá por dois motivos: primeiramente, porque em 2012 o país foi desconectado do SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), que é um canal de comunicação global; e também devido ao embargo imposto pela União Europeia ao petróleo iraniano (o país é o terceiro maior produtor da OPEP).

Outro ponto interessante a destacar é a forma como o governo iraniano intervém na economia, através de diversas empresas estatais e influência em empresas privadas onde o Estado é acionista. Muitos acreditam que essa intervenção gera ineficiência, esmagando a concorrência e fazendo quase inexistente o desenvolvimento do setor privado, o qual tem potencial de gerar mais empregos. Ademais, grande parte da arrecadação tributária é destinada a essas empresas estatais e a instituições religiosas, que, em teoria, deveriam sobreviver apenas através de doações de seus seguidores. Assim, torna-se compreensível o porquê do descontentamento público.

Os Estados Unidos, que já têm relações deterioradas com o Irã desde 1979 – quando a embaixada americana no Teerã foi invadida por estudantes, e reféns foram feitos -, se posicionaram a favor dos protestos e contra o governo. O Departamento de Estado emitiu duas declarações apoiando a revolta popular e criticando o governo iraniano. Até mesmo o vice-presidente Mike Pence publicou um artigo no jornal “Washington Post”, revelando que, ao contrário do que ocorreu na administração de Barack Obama, não ficarão isentos. Além disso, o presidente Donald Trump, em sua conta do Twitter, já fez diversos comentários com o mesmo viés. Embora as ações mostrem apoio à população iraniana, é provável que tal atitude tenha efeito oposto.

A história mostra que tal comportamento (interferência norte-americana em países que passam por momentos de reinvindicações populares) enfraquece os protestos. Isso ocorre porque o Chefe de Estado iraniano, Ali Khamenei, conhecido como “Líder Supremo”, passa a criar a ideia de um inimigo externo comum. Tal estratégia pode acabar tirando foco dos protestos, pois a situação se tornaria uma questão de segurança nacional, além de fazer com que as próprias causas defendidas pela população sejam diminuídas e tidas como consequência da influência dos Estados Unidos – que sempre teve desavenças e o objetivo de enfraquecer o governo iraniano.

Analistas políticos acreditam que o governo americano deveria seguir o exemplo de seus aliados no Ocidente e realizar apenas uma única declaração, a condenação do uso de força letal, por parte do governo, contra a população civil.

Alguns estudiosos classificam o movimento iraniano como disperso e mal organizado. A falta de um líder – que possa apontar um norte, servir de negociador entre as demandas da população e o governo, além de representar os objetivos da população de forma clara – torna ainda mais difícil crer na concretização do movimento. Assim, é esperado que os protestos não resultem nas mudanças que a população almeja, mas sim na manutenção do status quo.