O atentado sofrido pelo candidato Jair Bolsonaro em Juiz de Fora, na semana passada, é um evento que tem poder de definir a eleição de 2018? Essa pergunta, que tomou conta do país, não pode ser respondida no calor dos acontecimentos. Em 2014, após a morte de Eduardo Campos, num acidente aéreo, a comoção imediata fez sua candidata a vice, Marina Silva, pular vários pontos nas pesquisas, atingindo o empate técnico com a ex-presidente Dilma Rousseff. Mas, como se sabe, o segundo turno foi disputado entre Dilma e Aécio Neves.

Neste novo post da série “De olho nas eleições”, o economista da Órama Alexandre Espirito Santo analisa os dados da última pesquisa de intenções de votos do Instituto Datafolha, divulgada no dia 10 (para aferir o impacto da agressão sofrida pelo candidato do PSL), e que já capta o sentimento do eleitor em relação ao atentado. Seguem as avaliações de Espirito Santo:

Bolsonaro – A pesquisa mostra uma leve subida de Bolsonaro. De poucos segundos de propaganda, ele ganhou várias horas nas redes sociais e na imprensa em geral. Acredito que, com 24% das intenções de voto, Bolsonaro tem 80% de chances de estar no segundo turno. Será preciso um evento totalmente imprevisto, à lá “cisne negro”, para tirá-lo do round final.

Indecisos/Nulos – Importante assinalar que tanto a pesquisa do Ibope quanto a do Datafolha já captaram o início da campanha no rádio e na TV, além das entrevistas no JN e as de outros veículos. Percebe-se, em ambas, que o número de indecisos e brancos/nulos caiu consideravelmente (de 22% para 15%) a um mês do pleito, sinalizando que o eleitor passou a prestar atenção nos candidatos.

Haddad e Ciro – A despeito de o Judiciário negar novas demandas dos advogados do ex-presidente Lula para liberá-lo a concorrer, o PT titubeou bastante na definição de Fernando Haddad como substituto de Lula. Essa demora petista pode favorecer o ex-governador Ciro Gomes, especialmente pela sua forte penetração no Nordeste. Uma das propostas mais polêmicas de Ciro é aquela que promete retirar o nome dos endividados do SPC, o que, em tese, favorece as classes de renda mais baixas. Segundo percepção geral, sendo Haddad pouco conhecido, Ciro acaba herdando votos do lulismo. Por isso, a estratégia protelatória do PT pode materializar as chances de segundo turno de Ciro.

Disputa embolada – Por falar em segundo turno, a disputa está embolada entre Ciro, Marina e Geraldo Alckmin. Estão empatados dentro da margem de erro e não dá para saber, pelas pesquisas, quem enfrentará Bolsonaro.

Alckmin – O tucano teve uma má notícia na semana passada, ao ser divulgado um vídeo do presidente Michel Temer, endereçado ao candidato, deixando claro que o PSDB e a coligação que lhe sustenta fizeram e fazem parte do governo atual. Como a popularidade de Temer é muito baixa, e os adversários tentam “colar” a imagem de Alckmin à de Temer, o candidato partiu para críticas ao governo do emedebista, o que levou à resposta do presidente da República. Isso pode se tratar de um revés, e será preciso habilidade dos estrategistas de sua campanha para reverter esse possível estrago.

Rejeição – Apesar do atentado contra sua vida, o maior problema de Bolsonaro é sua forte rejeição (acima de 40%), o que lhe torna um candidato com enormes dificuldades num eventual segundo turno. Será que o atentado tem poder de reduzir sua rejeição? Nos cenários de disputa mano-a-mano, sugeridos pelos pesquisadores de IBOPE e Datafolha, Bolsonaro perde para todos os oponentes, uma vez que sua rejeição é muitíssimo elevada.

Voto útil – Não nos surpreenderemos se, em breve, começarmos a ver uma “onda de voto útil”, já no primeiro turno – normalmente, esse tipo de situação ocorre somente no segundo. Mas, diante dos fatos, os simpatizantes de Bolsonaro, assim como os que lhe rejeitam, podem partir para esse tipo de comportamento antecipado: os primeiros para garantirem uma vitória já no primeiro turno, e os segundos para terem possibilidade de derrotá-lo, no fim de outubro.

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