Li, recentemente, estudo do economista Marcel Balassiano, do IBRE/FGV, que aponta que mais de 90% dos países apresentaram crescimentos econômicos superiores ao do Brasil no período compreendido entre 2011 e 2018. A fonte dos dados foi o relatório semestral do Panorama da Economia Mundial, do FMI.

Como o crescimento deste ano ficará muito abaixo do que seria necessário para subirmos alguns degraus nesse ranking, estamos caminhando para uma nova década perdida.
Não podemos esquecer que depois da crise, quando o PIB sob Lula crescera 7,5% em 2010, puxado pela “nova matriz macroeconômica”, muitos economistas vislumbravam que, doravante, o Brasil seria a locomotiva da América Latina. Não foi o que ocorreu.

Gosto de explicar os fenômenos econômicos como se fosse para um leigo, pois, dessa forma, a Ciência Econômica se associa ao nosso dia a dia. Vejamos um exemplo: suponha uma família cujas receitas sejam inferiores às despesas, ou seja, um agente econômico deficitário. Se for assim, as opções para aliviar o problema passam pelas seguintes alternativas: 1) Usar uma reserva, o que equivale a gastar poupança prévia; 2) Cortar gastos; 3) Aumentar suas rendas; 4) Assumir empréstimos, normalmente pagando juros e 5) Uma combinação das anteriores.

Ser um agente deficitário não é hipótese restrita somente às famílias. As empresas e os governos também sofrem de restrições em seus orçamentos. Se são deficitários necessitarão recorrer às opções que mencionei acima.

Todavia, como governos são administrados por políticos que possuem pretensões eleitorais, normalmente eles são refratários ao item dois. Preferem, na maior parte do tempo, aumentar as receitas, via elevação de tributos e/ou endividar-se junto aos poupadores, o que retroalimenta o problema, uma vez que os gastos aumentarão, pela rubrica de juros.
Entretanto, o aspecto central desta conversa é que governos perdulários, sem a devida austeridade fiscal, desequilibram a poupança agregada da economia, o que irá afetar, adiante, o investimento produtivo. Por quê?
Como ensinam os livros, a poupança da economia é função da renda e explicada, igualmente, por componentes expectacionais das famílias, empresas e até dos governos. É um assunto complexo, inclusive porque existe, eventualmente, uma espécie de enigma a ela associado, abordado por Keynes e conhecido, em “economês”, como paradoxo da parcimônia.

O fato é que a poupança funciona como um vazamento de recursos. Enquanto poupamos, o consumo presente é adiado e/ou reduzido. O problema é que o investimento empresarial, a longo prazo, equivale, contabilmente, à poupança, o que suscita aquela ideia “o que vem primeiro: o ovo (investimento) ou a galinha (poupança)?”.

Faço essas considerações porque na quinta-feira, 30/5, o IBGE divulgou o PIB do 1º trimestre de 2019 e algumas outras estatísticas importantes. O crescimento foi negativo em 0,2%. Mas, o pior é que o país continua apresentando uma taxa de poupança inferior a 14% do PIB (na China esse número supera os 40%) e o investimento empresarial está quase 30% abaixo do pico alcançado em 2013. Como a poupança doméstica é composta por aquelas formadas por famílias e empresas (privada) e pelo governo (pública), se um desses entes gastar de forma exagerada, teremos um enorme problema.

Nesse aspecto, no Brasil, nosso governo é o principal culpado.
Apresentamos, anualmente, um déficit nominal (quando se inclui juros da dívida e correções) equivalente a 7% do PIB. Esta é, de forma simples, a necessidade de financiamento do setor público. Explicado em outras palavras, como o país é desregrado em seu orçamento, vamos precisar consumir uma parcela da poupança privada e ainda necessitaremos importar poupança internacional para compensar, o que afeta as nossas contas externas.

Aos defensores de governos paquidérmicos: compreendo o mérito dos gastos sociais, mas rejeito a ideia de que, por ter compromissos sociais, não podem sofrer restrições financeiras. Igualmente discordo da forma com que os governos, no passado recente, conduziram as políticas públicas e econômicas. Deixaram de herança desequilíbrios quase irreversíveis e, mais do que isso, uma sensação nos empresários e famílias de que o dilema entre escolhas presentes e futuras, que se traduz em juros elevados, é perene, o que não favorece a retomada do PIB e a geração de empregos.

Como cantava Renato Russo, na década de 1980, “não temos tempo a perder”. Déficits persistentemente altos, sobretudo em países de renda média como o nosso, significam legar às gerações que chegam crescimentos pífios durante muitos anos. Se fizermos as reformas que estão sendo discutidas no Congresso, teremos alguma chance de reversão desse quadro. Caso contrário, será “tempo perdido”, pois o futuro promissor, tão sonhado, ficará restrito às nossas memórias.